segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Cavalos

Abri a porta de casa, como o fiz antes, várias vezes. Caminho debaixo da chuva minúscula, relva verde, sol que teima espreitar por entre as nuvens meio cinzentas. Penso baixinho para a minha cabeça não ouvir, para os pensamentos não fugirem cá de dentro. Terá sido uma má escolha de palavras? Mais uma vez? A terra batida não deixa grande margem para dúvidas. O caminho foi tantas vezes realizado por mim que lhe perdi as contas, que os meus passos se tornam automáticos. Fujo dos pensamentos, abrindo a porta dos estábulos, deixando fugir os cavalos. Terei feito bem? Terão os cavalos liberdade suficiente nos campos em volta? Mas puxo os pensamentos de volta para mim. Não os deixo escapar. Sinto a madeira húmida da chuva, a ferocidade da corrida dos cavalos. O resfriado, e o meu pensamento foge com eles. Má escolha de palavras. Eu não volto mais ao meu corpo. Não se trata de uma decisão consciente, mas da decisão consistente que me assola nos momentos mais débeis da existência.

2 comentários:

Ivan Figueiras disse...

Como sempre, difícil de compreender. Mas cada vez melhor, cada vez mais consistente a tua abstracção.

Rute disse...

Solta-os!Solta os cavalos monta-te num e vai em busca da liberdade com ele ;)